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Diplomação póstuma reconhece trajetória do ex-aluno Hélcio Pereira Fortes, morto na ditadura militar

publicado: 06/03/2026 15h00, última modificação: 06/03/2026 15h16

O Campus Ouro Preto realizou, na tarde de quinta-feira, 5 de março, a cerimônia de diplomação póstuma do ex-aluno Hélcio Pereira Fortes, estudante da antiga Escola Técnica Federal de Ouro Preto (Etfop), importante liderança estudantil que teve sua trajetória interrompida durante o período da ditadura militar brasileira. O ato, considerado a primeira diplomação póstuma de um estudante secundarista no âmbito do IFMG, foi organizado em parceria com o Grêmio Estudantil do campus.

A cerimônia reuniu representantes de movimentos estudantis, servidores, estudantes, membros da comunidade e autoridades institucionais, marcando um momento de reconhecimento histórico e simbólico.

Compuseram a mesa da solenidade: o diretor-geral do Campus Ouro Preto, Reginato Fernandes; o pró-reitor de Ensino do IFMG, Mário Alvarenga, representando o reitor Rafael Bastos; o reitor substituto do IFMG, José Roberto de Paula; o presidente do Grêmio Estudantil do Campus Ouro Preto, Zion Trevisani; o irmão de Hélcio Fortes, Délcio Pereira Fortes; o chefe de gabinete Hamilton Silva, representando a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo; Wadson Ribeiro, representando a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos; o prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo; a secretária municipal de Educação, Débora Etrusco; a vice-reitora da UFOP, Roberta Fróes; a ex-deputada federal Jô Moraes; o deputado estadual Celinho Sintrocel; a diretora da UBES, Jhennifer Nicoly; e o presidente da UCMG, Leonardo Souza.

Hélcio Pereira Fortes

Quem foi Hélcio Pereira Fortes

Nascido em 24 de janeiro de 1948, em Ouro Preto (MG), Hélcio Pereira Fortes estudou na então Etfop, instituição que deu origem ao atual IFMG Campus Ouro Preto. Ainda jovem, destacou-se pelo envolvimento em atividades estudantis. Integrou o Grêmio Literário Tristão de Athayde e a União Colegial Ouro-pretana, sendo reconhecido pelo interesse em debates políticos, pela produção cultural e pelo entusiasmo intelectual.

Após o golpe militar de 1964, Hélcio passou a atuar politicamente na resistência ao regime. Teve papel relevante na greve dos metalúrgicos em Minas Gerais, em 1968. Em 1970, tornou-se coordenador nacional da Ação Libertadora Nacional (ALN) e, posteriormente, ficou responsável pela organização regional do movimento no Rio de Janeiro.

Em 22 de janeiro de 1972, foi preso no Rio de Janeiro e transferido para o DOI-CODI do II Exército, em São Paulo. Segundo investigações posteriores, foi submetido a torturas e morreu nas dependências do órgão repressivo entre 28 e 31 de janeiro de 1972, poucos dias após completar 24 anos.

A versão oficial divulgada à época, que atribuía a morte a um confronto armado, foi posteriormente contestada por testemunhos e investigações. O caso foi reconhecido pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) em 1996 e também consta nos relatórios da Comissão Nacional da Verdade, divulgados em 2014.

Hoje, Hélcio Pereira Fortes dá nome ao Grêmio Estudantil do IFMG Campus Ouro Preto.

Origem da proposta de diplomação

A iniciativa de diplomação póstuma surgiu a partir de atividades acadêmicas e culturais promovidas por servidores junto a estudantes do campus durante programações dedicadas à reflexão sobre história e democracia. Segundo a servidora Líria Lara Soares, a ideia começou a tomar forma em 2024, durante a organização de atividades do Mês do Estudante, coordenada por ela junto à pedagoga Talita Valadares. As ações voltaram-se à reflexão sobre os 60 anos do golpe militar de 1964 e, posteriormente, sobre os 40 anos da redemocratização do país.

Para o evento, foram convidados servidores e integrantes do Grêmio Estudantil para realização de debates, exibição de filmes, exposições e rodas de conversa sobre esse período histórico. "A ideia da diplomação surgiu nesse contexto e, a partir da dedicação da servidora Fabrícia Coelho, com sua experiência no registro escolar, os encaminhamentos para o processo foram realizados. Com uma construção coletiva, contribuímos para a reflexão dos estudantes sobre paginas recentes de nossa história, cientes de ue o conhecimento e a educação são importantes para o fortalecimento da nossa democracia”, conta.

O processo institucional

diploma Hélcio FortesA servidora Fabrícia Coelho, que participou ativamente do processo que culminou com a homenagem, explica que a proposta ganhou forma após a identificação de documentos históricos durante os trabalhos de organização do acervo acadêmico do campus. Durante o levantamento documental foram encontrados registros relacionados a estudantes que tiveram suas trajetórias acadêmicas impactadas por perseguições políticas. Entre esses casos estava o de Hélcio Pereira Fortes.

A partir dessa constatação, iniciou-se a busca por documentos e informações que fundamentassem o processo de diplomação póstuma, posteriormente encaminhado à Reitoria do IFMG para análise e tramitação institucional.

Para Fabrícia, a iniciativa representa também um gesto de reconhecimento da própria história da instituição. “Hélcio Pereira Fortes não é apenas um nome numa pasta acadêmica ou num dossiê da Comissão da Verdade. Ele é filho de Ouro Preto, ex-aluno da escola e símbolo de uma geração inteira que pagou com a própria vida o preço da resistência ao autoritarismo. A diplomação póstuma é um ato de autoconhecimento institucional. A escola olha para sua própria história, reconhece que um de seus alunos foi morto pelo Estado e declara que isso não será esquecido”, afirma.

Significado para estudantes e comunidade

O diretor-geral Reginato Fernandes conta que foi durante as atividades do Mês do Estudante que teve acesso a uma pasta “enigmática” do acervo acadêmico da instituição - a de Hélcio - que chamou atenção por reunir registros incompletos e um fato marcante.

“O último documento desta pasta era um telegrama enviado pela escola à família do estudante pedindo que ele retornasse, porque estava deixando de comparecer às aulas. A resposta foi simples e muito pesada: ‘Nós perdemos o contato com ele’. É uma frase pequena, mas que conta toda uma história”, ressalta. Para o diretor, o ato de diplomação faz com que a documentação acadêmica do ex-aluno deixe de carregar apenas a ausência e passe a registrar também o reconhecimento institucional de sua trajetória.

O presidente do Grêmio Estudantil do Campus Ouro Preto, Zion Trevisani, ressalta a importância da memória histórica para as novas gerações: “Esse estudante que um dia pisou nas salas de aula dessa instituição jamais abandonou a mais preciosa luta de uma juventude: o sonho de uma escola emancipatória, com qualidade de ensino gratuita, com dignidade humana e permanência estudantil. Tenho orgulho de dizer que a primeira diplomação póstuma de um secundarista no Brasil foi conduzida por uma organização estudantil de uma das escolas técnicas mais antigas do país. Esse diploma é também para tantos outros Hélcios que a história tentou apagar”.

Para o pró-reitor de Ensino do IFMG, Mário Alvarenga, a homenagem impacta especialmente a formação cidadã dos alunos: “Sabemos que não há como reparar a perda de uma vida, mas este ato tem um significado importante para os estudantes, pois serve como referência e inspiração. O movimento estudantil é um processo fundamental de formação de caráter e de cidadania. Esse momento é muito significativo para os estudantes de todo o IFMG”.

Durante a cerimônia, Délcio Pereira Fortes, irmão do homenageado, destacou o significado do gesto para a preservação da memória do estudante e de tantos jovens que resistiram ao regime. “Com a redemocratização do país, Hélcio vem recebendo várias homenagens post mortem, o que nos leva a crer que ele continua inspirando comportamentos e, acima de tudo, mora dentro dos nossos corações”.

Délcio Pereira Fortes é também autor do livro Hélcio: Alex, Toninho, Ernesto, Nelson, Fradinho, que está em sua segunda edição, revista e ampliada. A obra retrata a trajetória do jovem revolucionário que marcou a história do movimento estudantil.

Resolução

O pedido de diplomação post mortem do ex-aluno passou por análise e aprovação do Conselho Superior do IFMG, sendo concedida por meio da Resolução nª 45 de 5 de novembro de 2025.